O seu filho está a aprender duas línguas e tem dúvidas se o desenvolvimento da fala está dentro do esperado? Saiba o que é considerado típico e quando deve procurar ajuda.
O desenvolvimento da linguagem é um processo natural e progressivo, mas pode seguir percursos ligeiramente diferentes consoante a criança cresça exposta a uma ou a duas línguas. Conhecer as etapas esperadas ajuda os pais a compreender melhor o que é considerado típico e quando pode ser importante procurar apoio especializado.
Na nossa prática clínica em Vila Nova de Gaia, acompanhamos frequentemente pais com dúvidas sobre o desenvolvimento da linguagem, especialmente quando a criança cresce num contexto bilingue.
Primeiros Sons (0–12 meses)
Entre os 0 e os 2 meses, surgem vocalizações reflexas e vegetativas, como o choro, gritos, sons de desconforto e sons associados a funções fisiológicas (arroto, bocejo).
Dos 2 aos 4 meses, aparecem sons guturais e prolongados, muitas vezes vocálicos (“uuu”, “aaa”). Nesta fase surge o prazer vocal e o chamado arrulho, frequentemente associado à interação social.
Entre os 4 e os 7 meses, o bebé começa a explorar mais os sons, produzindo risinhos, gritos agudos, sopros e sons de fricção.
Dos 7 aos 10 meses, surge o balbucio, com repetição de sílabas como “baba” ou “mamama”.
Entre os 10 e os 14 meses, os sons e padrões de entoação começam a aproximar-se da língua ou línguas da família. Podem surgir as primeiras protopalavras — produções fonéticas próprias da criança, usadas de forma consistente para representar pessoas, objetos ou ações do quotidiano.
Primeiras Palavras (12 meses – 2 anos)
Por volta dos 12 meses, muitas crianças começam a produzir palavras simples, estáveis e consistentes, como “mamã”, “papá” ou “dá”. Nesta fase, é comum o uso de holófrases, ou seja, uma única palavra pode expressar um pensamento completo.
Entre os 12 e os 18 meses, o vocabulário pode variar entre 3 e 50 palavras ativas. Predominam os substantivos e a compreensão é significativamente superior à produção.
Por volta dos 2 anos, observa-se frequentemente um rápido aumento do vocabulário: muitas crianças passam de cerca de 50 palavras para 200–300. Surgem as primeiras combinações de duas palavras (“mais água”, “quero pão”) e inicia-se a morfossintaxe emergente.
Expansão da Linguagem (3–6 anos)
Aos 3 anos, a criança pode apresentar um vocabulário ativo aproximado de 200–300 palavras (com grande variabilidade individual). Começa a utilizar plurais regulares, alguns pronomes pessoais (“eu”, “tu”) e frases de 3–4 palavras.
Aos 4 anos, o vocabulário pode atingir cerca de 1600 palavras. As frases tornam-se mais complexas, com coordenação (“eu quero bolo e sumo”), uso consistente de pronomes, tempos verbais básicos e perguntas. A fala torna-se progressivamente mais clara para pessoas fora do círculo familiar.
Entre os 5 e os 6 anos, o vocabulário pode ultrapassar as 2500 palavras. As frases tornam-se mais longas (6–8 palavras), surgem estruturas subordinadas simples e a criança é capaz de contar pequenas histórias com sequência temporal, utilizando conectores como “porque” e “depois”.
Monolingue vs. Bilingue: Quais as diferenças?
Nas crianças monolingues, o desenvolvimento ocorre numa única língua, o que pode dar a perceção de maior rapidez inicial. Já nas crianças bilingues, a aprendizagem distribui-se por duas línguas, podendo parecer mais lenta em cada uma individualmente. No entanto, quando consideramos o vocabulário total das duas línguas, este tende a ser comparável ou até superior ao das crianças monolingues.
As crianças bilingues desenvolvem maior flexibilidade cognitiva ao aprenderem a alternar entre sistemas linguísticos. Beneficiam ainda de contacto com duas culturas e diferentes contextos sociais.
Em termos de avaliação, as crianças monolingues são avaliadas com base em normas mais lineares. Já no bilinguismo, a avaliação deve ser mais cuidadosa e contextualizada, considerando a exposição a cada língua.
O que os Pais Devem Saber
- Um ritmo diferente não significa necessariamente atraso — no bilinguismo, é comum uma distribuição do vocabulário entre duas línguas.
- Falar a língua da família em casa fortalece os laços afetivos e a identidade cultural.
- Criar experiências ricas em linguagem é essencial: ler, cantar, conversar e brincar diariamente faz toda a diferença.
- Se existirem dúvidas ou atrasos persistentes, uma avaliação com um terapeuta da fala pode ajudar a clarificar o desenvolvimento da criança.
Quando deve procurar avaliação?
- Se aos 2 anos a criança ainda não combina palavras
- Se apresenta pouca intenção comunicativa
- Se parece não compreender instruções simples
- Se há regressão na linguagem
Conclusão
Tanto o monolinguismo como o bilinguismo são percursos de desenvolvimento saudáveis. O mais importante é garantir que a criança cresce num ambiente rico em interações, com oportunidades frequentes para ouvir, compreender e comunicar.
Por Lee-Ann Diogo Terapeuta da Fala no CTLM
Especializada em desenvolvimento da linguagem infantil e perturbações da comunicação.

